- Quer ir lá em casa no final de semana? - ele me fez a pergunta como se nada tivesse acontecido.
- Sua mãe deixou!? - perguntei, receoso.
- Claro! Ela adora quando você vai lá! A gente vai no clube do América pela manhã.
Eu aceitei. Não apenas pela companhia, mas por tudo aquilo que uma simples "ida à casa dele" significava: jogar N64 até o anoitecer!
Não posso negar, eu adorava videogames! Em especial o 007 Contra GoldeenEye com todas aquela manhas de armas e munição. Era impossível ser derrotado, pois a manha de vidas eternas e life infinito não possibilitava isso.
Cheguei em casa e perguntei a minha mãe se podia ir com ele. Ela, como quase sempre, me liberou.
O telefone tocou no dia seguinte. Era ele. Ligou para avisar que já estava saindo de casa e que, em alguns minutos, passaria para me pegar. Dez minutos, era o máximo de tempo que levava. Afinal, ele não morava tão longe, mas nem tão perto. O interfone tocou.
- Tchau, mãe! - disse ao pegar minha mochila com cueca, toalha, protetor e alguns biscoitos ou chips.
Entrei no carro. A mãe e o padrasto dele cumprimentaram minha mãe e lá fomos.
O clube do América ficava a quase uma hora de minha casa, se o trânsito estivesse bom. No caminho, dentro do carro, brincávamos de várias coisas. Tínhamos uma brincadeira na qual ficávamos a fazer careta, pelo vidro de trás do carro, para os que passavam na rua. Éramos muito jovens, duvidávamos de que alguém acharia ruim (mas ainda assim, morríamos de medo de ter a atenção chamada).
Ele tinha um GameBoyColor também. Jogar Pokémon era, simplesmente, uma maravilha! Não exagero ao dizer isso, pois o desenho, o álbum, os jogos, etc. eram febre na época. Eu sabia os nomes dos 151 Pokémons, todas as músicas de cor, estava quase por completar meu álbum (só faltavam as insígnias de figurinhas brilhantes) e sonhava com a vinda dos novos 100 Pokémons da série Jotho. Eu o ajudava a capturar, treinar e até a derrotar líderes de ginásio!
- Chegamos! - anunciou a mãe dele. O padrasto era um senhor bem legal. Não sabia exatamente o que acontecera com o pai dele. Nunca me falou nada.
Corremos pelo estacionamento descalços. As britas quentes queimavam e quase furavam nosso pés. Mas não importava, logo estaríamos no clube, nas piscinas, no tobogã. Ah, aquele tobogã. Não havia coisa melhor! Três voltas, tinha ele. Brincávamos de descobrir técnicas para ganhar velocidade. Trenzinhos eram comuns, mas muito lentos. Queríamos velocidade. Pulávamos no início, pegando impulso na barra que ali havia. Empurrávamos as paredes do tobogã para trás, enquanto éramos arremessados para a frente. Além de tudo, ainda deitávamos no formato de flecha para chegar lá embaixo com a mesma velocidade de uma. Que delícia!
Também tínhamos algumas brincadeiras dentro da piscina. Lutas influenciadas por Pokémon e DragonBall Z. Muito íntimas elas ficavam.
Algo que eu adorava fazer era nadar até o fundo da piscina e fingir que era um daqueles peixes que nadam com a "barriga" encostada no fundo. E nadava por entre os homens que se refrescavam. Não sei exatamente o que ele fazia, se agia do mesmo modo que eu. Mas de uma coisa eu sabia (só não compreendia o porquê): eu era diferente dos outros garotos da minha idade. Não que isso me incomodasse, afinal, sempre fui muito firme ao ter que decidir entre queimada e futebol, pular corda e futebol, vôlei e futebol...
Eu não ficava muito com os outros meninos. Sentia algo muito estranho e que, para eles, assim como para muitos, era um sentimento condenável. Por esse e, talvez, outros motivos, me "escondi".
Passava mais tempo com as meninas a fim de me esconder. Brincávamos de professor, "clubinho", enfim... coisas de menina. Eu não ligava quando os outros diziam: "Ih, olha a menininha!" ou qualquer coisas assim. Eu sabia que era menino. Apenas gostava do que as meninas gostavam. A companhia delas me era melhor que a deles. Só queriam saber de futebol e brincadeiras de menino, que, quase sempre, acabavam em briga.
Apesar de íntimas, nunca tentamos o ato mais simples. Era nojento. Na nossa idade, não queríamos saber disso, ainda mais por termos, como influência, o filme "Os Batutinhas" com aquelas falas "meninas, BLAAAAARGH!" e a encostada na língua insinuando o vômito. Era estranho praticarmos algo, talvez mais intenso, e morrermos de nojo disso.
Ok, eu beijei minha prima. Eu devia ter uns 8 anos. Era uma brincadeira de "Verdade ou Consequência". Minhas verdades se foram. Numa consequência, tive que beijá-la. Não gostei. Na verdade, fui neutro quanto ao beijo, e morri de nojo da ideia de ter saliva dela na minha boca. Eca, troca de cuspes!!
Fora isso e minhas experiências de "Descubra o sexo oposto" do jardim de infância, as quais, após muito temer por tê-las praticado, descobri serem bem comuns, meu único outro beijo com uma garota foi aos 14 anos. Inicialmente, tudo bem. Ela me pediu para morder um bombom que segurava em seus lábios. Lá fui eu... devo dizer que gostei da ideia. Nossos lábios se tocaram e o gosto do chocolate com recheio de nozes dava um "quê" àquele ato. Provocante, devo dizer. Logo depois, porém, um beijo de verdade. Não consegui. A repulsa que senti foi enorme! Não consegui nem mesmo mexer meu lábios. Ela perguntou: "Por que você não me beija!? Nunca beijou?". Não, eu nunca havia beijado, não daquele jeito, com língua e tudo. Mas não era isso que me impedia. Simplesmente não dava! Não conseguia!
Após o momento frustrante (e após ela me deixar sozinho, quase em posição fetal, lá fora, no escuro), corri para o banheiro...