domingo, 30 de maio de 2010

V.

Uma ligeira impressão sobre o Concerto para Viola em Si menor, de Casadesus:
o concerto traz um discurso triste, como se o solista estivesse segurando suas lágrimas a cada frase, engolisse esse choro, mas voltasse a se desesperar, ainda que com um tanto de contenção. Parece-me a tristeza de um inocente, uma pessoa sem qualquer maldade sobre os acontecimentos ou pessoas e que está em sofrimento após ter seu mundo "perfeito" quebrado, de ter se chocado com as hostilidades além da porta de casa.

I.


Ah, como é complicado gostar de alguém...
Uma precaução, não sei de onde, aparece. Talvez por medo de gastar tudo o que tenho nas primeiras conversas, nos primeiros atos. O que há de acontecer quando eu não mais puder surpreender? Não que as surpresas devam ser a base de um relacionamento. É quase (quase) impossível ser uma pessoa cheia de surpresas. É como guardar, esconder seu verdadeiro eu e deixá-lo escapar aos poucos. Há um grande risco ao se fazê-lo, pois a pessoa na qual seu companheiro acreditava ser você pode se revelar como uma completa estranha.
E mais um medo se soma. O medo de que a relação, agora um tanto mais próxima, se vá por conta dessas surpresas. Uma contenção involuntária do ser, pelo menos no início, se estabelece. Você tenta impressionar o outro de alguma forma, para que ele não perca o interesse, o gosto por você, e começa a filtrar os dizeres, a escolher as ações e, até mesmo, a simular os gestos.
Você percebe que aquilo dá certo e continua com essas pequenas mentiras, esperançoso de que o relacionamento há de crescer e de que aquelas pequenas falsidades desapareçam com o tempo. Mas elas não desaparecem. Você se tornou um grande mentiroso a partir da primeira simulação e a mentira cresceu em você, a tal ponto que não se consegue mais distinguir a verdade da falsidade.
Apesar de já ter lido muitos livros, ou assistido a vários filmes e programas de TV, nos quais as personagens vivem uma mentira por toda a vida sem ruir, apenas corroendo-se internamente, mas sem deixar absolutamente nada transparecer ao companheiro, não acredito que seja verdade. Seria necessário um ator tremendo, cuja vida fosse pura interpretação, para se conseguir ser algo que não é.
Acredito que uma pessoa comum, vítima de paixão, frágil em relação ao amor, não consiga tal feito. Ela há de se mostrar um dia e, quando essa verdade surgir, aí sim começa o relacionamento verdadeiro... ou o fim dele.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

P. I.

Ah, drama infernal.
Não gosto (se gostar for a palavra) o suficiente de mim para deixar que outros o façam.
Deprimo-me a cada segundo que fico na solidão.
Então, nada é o que consigo fazer. Vou para outro mundo. Um mundo meu, apenas, onde estão aqueles de quem sou mais próximo. Não converso, porém, com essas pessoas. Tenho medo que elas se entediem com minha falta de graça ou conhecimentos.
Fecho-me em meus pensamentos, negros pensamentos, dos quais apenas uma luz pode me salvar.
O amor.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

C.

De fato, ser verdadeiro com as pessoas, principalmente com aquelas que querem se aproximar e com as que já são próximas, é um grande passo para uma relação forte, afinal, há muito que a vida profissional não é capaz de suprir.
Isso se evidencia mais em todas as vezes as quais um terrível sentimento de depressão bate. Nessas horas, assim como em muitas outras, precisamos de um amigo, ou vários, se possível for. O que fazer, porém, quando se é incapaz de criar uma amizade? Quando não se consegue dizer o que quer, não se consegue mostrar esse "eu verdadeiro"? Definitivamente é uma das piores situações possíveis. O relacionamento se torna, aparentemente, superficial e uma das partes pode ver justamente isso, essa superficialidade, sentir-se enganada e deixar o amigo-superficial para trás.
É fato que tenho problemas para conversar, talvez por medo do que pensem de mim. Mas nesse suprimir de verdades, posso, na verdade, acabar por fazer amizades forçadas, que é o pior tipo o qual pode existir.
Quero relacionamentos verdadeiros, sim, mas teria que apresentar às pessoas fatos que eu mesmo insisto em ignorar.

Não os ignoro. Excluo-me de minha própria vida.
Pergunto-me: seria eu mais feliz?